Juventude Líquida!

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 “Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia”. – Albert Camus

Há certos temas que para mim são muito recorrentes e embora pareça que eu os persiga, tenho plena certeza que de certo modo os evito, eles sempre voltam à mim. Não há êxito nessa fuga.

Semana passada nesse mesmo blog dividi com vocês, a indicação do filme A Pequena Loja de Suicídios, trata-se de uma crítica muito bem humorada, dotada de uma imensa ironia, que retrata parte das aspirações da nossa sociedade, cada vez mais consumista, vorazmente apreciadora de prazeres, de soluções práticas e fáceis. Era essa indicação também uma forma silenciosa de eu exprimir o que tenho absorvido do mundo atual.

O hedonismo, que nada mais é que uma corrente do pensamento filosófico que estuda os mais irrefreados prazeres, tendo o prazer como o mais absoluto bem da vida, estará protagonizando as mais absolutas angústias humanas no futuro que virá, há no meu entendimento uma obrigação pela felicidade, um sentimento de que se não aproveitarmos ao máximo todas as possibilidades da vida estaremos descumprindo nosso sentido primordial de existência, nossa mais nobre missão, que é ser feliz, ter prazeres e realizações. Fincar algo de bom nesse mundo de meu deus, construir uma obra profícua, escrever um livro, plantar uma árvore, vai saber.

Bem, mas e quando algumas (ou quem sabe nenhuma) das nossas satisfações não são correspondidas? Eis o maior dos dramas atuais pra mim.

Não é novidade pra quase ninguém, acredito, que a grande patologia desse século seja a depressão, num mundo cada dia mais torto, cada dia menos solidário, onde as tecnologias avançam ao passo que nos afastam, natural que parte desse caos reinante se reflita nas mentes e corações de alguns homens e mulheres, costumo dizer, qualquer aparência de normalidade num mundo tão doente é sinal claro de estupidez, tenho plena solidariedade aos depressivos, divido com eles as grandes inquietudes desse mundo, lamento sobretudo que as pressões do nosso dia a dia acelerem inevitavelmente essa inclinação à angústia.

Somos sistematicamente presos a uma enorme pressão coletiva, quem nunca passou pelas terríveis perguntas: Já tá namorando? Agora que está namorando quando casa? Já se formou? Já arrumou emprego? Quem casa tem que ter filhos, menino ou menina? Sucessão de apoderamentos exteriores da nossa própria vida.

Que sinistra corrida pela felicidade, não? Somos obrigados a demonstrar felicidade, somos levados a crer que só é feliz quem se adequa aos padrões de prazeres terrenos, cada vez é mais comum que os jovens se baseiem em ostentar suas posses, parte de uma quebra de valores, coisas que sequer são de nossa inerência, aliás, a partir disso vemos cada vez mais artigos de luxo, destinados aos mais felizes proprietários do sucesso, cada vez mais produtos exclusivos (tá aí, palavra bacana! EXCLUSIVIDADE) só pra quem tem alto poder aquisitivo, cada vez mais reis do camarote sendo modelos a serem alcançados.

Alguém certa vez me disse que status nada mais é que a obrigação de comprar aquilo que você não quer, com o dinheiro que você não tem para poder mostrar a pessoas que você não gosta.

Mas onde eu quero chegar com essa conversa? Mero discurso bolchevique contra o Capital? Estou pregando que todos façam votos franciscanos e doem seu dinheiro? Logicamente que não, mas é sobre essas plataformas que muitos jovens hoje tem depositado suas perspectivas de vida, muito mais do que o ser estamos vendo se sobrepujar o ter. E quando chega a frustração de que toda essa construção está alijada, muita gente se capitula diante a tristeza.

O país onde se tem um dos maiores consumos de ansiolíticos (popularmente calmantes!) no mundo é o Brasil, entre esses consumidores uma parte razoável é de jovens, incapazes de dormir sem as doses diárias do remédio, presos a essas drogas, imponderados de sonhos (sonhos de sonhar mesmo), muitas vezes solitários, tristes, reclusos. Ainda há no Brasil a falsa impressão que depressão é um modo cínico de chamar atenção, os mais radicais dirão que depressão nos tempos antigos se resolviam com cintos e chineladas.

O sociólogo Zygmunt Bauman nos dirá que estamos vivendo em tempos líquidos, onde nada é feito para durar, tudo falta uma concretude, estamos correndo constantemente atrás, mas ninguém sabe correndo atrás de quê. Vivemos sobretudo com pressa e o que tem mais me deixado espantado é que cada dia mais os jovens da minha geração e da geração que aí está se apossa da ideia de sua própria incerteza, se há de fato algo líquido é a juventude, ela está indissociavelmente ligada a ideia de um fim.

Quantos amigos perdemos nesse ano de 2013, ano terrível, tragicamente doloroso, pessoas enérgicas que tiveram suas vidas ceifadas no auge de sua existência, talvez esse tenha sido o ano de maior dor para todos nós, eu mesmo, me reuni com meus amigos por muitas vezes ao redor de outro amigo, já morto, choramos juntos muitas perdas.

Do outro lado da cidade, mais pobre e escura, outras tantas mães choraram seus filhos mortos pelo tráfico de drogas, talvez eles tivessem ainda mais a percepção da finitude de suas próprias existências, é uma outra forma de se entregar, se deixar levar pelo derradeiro e trágico ato final.

Cansei de entoar Somos tão Jovens, em alguns momentos com a voz embargada de lágrimas, tendo plena convicção de meus cabelos brancos crescendo amiúde, de minha força ou entusiasmo escorrendo pelas minhas mãos, muito além de minhas vontades. Sentimento que minha juventude já não é mais a mesma, líquida e fria.

Ontem assisti ao documentário Elena, que eu nem tinha ideia sobre o que se tratava, embora já tivesse visto o bonito cartaz de divulgação, procrastinei em ver, parece ter me vindo no tempo adequado. Três dias atrás (16/12/13), o filme foi vencedor do prêmio de Melhor Documentário Latinoamericano no Festival de Havana. Não tinha como mais postergar.

O filme é belíssimo, dotado de pura poesia, arte, cor e sons. É de um lirismo poético danado. Conta a história de Petra Costa, ela além de atriz é a própria diretora do filme, fala de sua ida a Nova York vinte anos depois do suicídio da sua irmã que também fora atriz.

Quem quiser ver fica o link: http://megafilmeshd.net/elena/

É uma história triste, intensa, que conta a vida e obra de uma juventude líquida.

Lucas de Souza Oliveira

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